Sunday, July 26, 2009
Sunday, June 21, 2009
Saturday, June 20, 2009
Friday, June 19, 2009
encontro
Observo-a discretamente numa manhã de sábado fria mas soalheira. Tem aquele ar de quem conhece bem o chão que pisa e espera encontrar no destino a confirmação de todas as expectativas. Uma vida programada mas nem por isso isenta de surpresas. Quiçá também elas esperadas. Inconscientemente. Sigo-lhe o olhar atento com que lê o jornal, a mão bonita e cuidada que vai virando as folhas. Por vezes, o esboço de um sorriso cúmplice com o teor do texto. Os barulhos da rua e da esplanada não a afectam. Absorta na leitura, alheia à mirada cobiçosa de alguns olhos masculinos. Há mulheres assim. Que se insinuam naturalmente. Cativam de forma discreta e cientes do efeito que provocam mas encaram-no com um recato e uma modéstia que as tornam ainda mais sedutoras. Então, de súbito, toca o telemóvel. Atende com um brilho no olhar e uma voz gutural, sussurrante. Escuta com o enlevo que eu já esperava. Depois, num sacudir dos cabelos, solta o riso.
E oiço-a dizer-me: Se me virar agora para trás, vejo-te aí à porta, não? Adoro as tuas surpresas, meu amor.
E oiço-a dizer-me: Se me virar agora para trás, vejo-te aí à porta, não? Adoro as tuas surpresas, meu amor.
Wednesday, June 10, 2009
gritos mudos

As minhas, eu sei, nada ou pouco valem. São, no entanto, arauto de emoções, espelho de sentires. Melodiosas no doce chilreio de uma declaração de amor. Cúmplices no rouco sussurro do prazer carnal. Escolhidas e pensadas no calor de uma discussão. Esquecidas e caladas no choro manso da solidão. São tudo isso, as minhas. Insignificantes. Banais. Mas ambiciosas enchem-se de um querer que nunca chega a ser. E teimosas insistem. Sabem-se assim e afirmam-se. São as palavras despretensiosas de quem tudo quer dizer mesmo sem saber escrever.
(imagem tirada da Net)
Sunday, June 07, 2009
lua cheia
A noite está quente, a noite é longa, a noite é magnífica para ouvir histórias, disse o homem que veio sentar-se ao meu lado no muro do pedestal da estátua de D. José. Estava realmente uma noite magnífica, de lua cheia, quente e mole, com alguma coisa de sensual e de mágico, na praça quase não havia carros, a cidade estava como que parada, as pessoas deviam ter-se demorado nas praias e só voltariam mais tarde, o Terreiro do Paço estava solitário, um cacilheiro apitou antes de partir, as únicas luzes que se viam no Tejo eram as suas, tudo estava imóvel como num encantamento, eu olhei para o meu interlocutor, era um vagabundo magro com uns sapatos de ténis e uma camisola amarela, tinha a barba comprida e era quase careca, devia ter a minha idade ou pouco mais, ele olhou para mim e levantou o braço num gesto teatral. Esta é a lua dos poetas, disse, dos poetas e dos contistas, esta é uma noite ideal para ouvir histórias, e para as contar também, não quer ouvir uma história? E porque é que teria de ouvir uma história?, disse eu, não vejo a razão. A razão é simples, respondeu ele, porque é uma noite de lua cheia e porque você está aqui sozinho a olhar para o rio, a sua alma está solitária e saudosa, e uma história podia dar-lhe alegria. Tive um dia cheio de histórias, disse eu, acho que não preciso de mais. O homem cruzou as pernas e apoiou o queixo nas mãos com ar meditabundo e disse: precisamos sempre de uma história mesmo parecendo que não.
(Antonio Tabucchi, Requiem)
(Antonio Tabucchi, Requiem)
Friday, June 05, 2009
Saturday, May 30, 2009
Saturday, May 23, 2009
O Vestido
No armário do meu quarto escondo de
tempo e traça meu vestido estampado em
fundo preto.
É de seda macia desenhada em
campânulas vermelhas à ponta de longas
hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como
um rito, meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu
corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória
guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem
minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.
(Adélia Prado)
tempo e traça meu vestido estampado em
fundo preto.
É de seda macia desenhada em
campânulas vermelhas à ponta de longas
hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como
um rito, meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu
corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória
guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem
minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.
(Adélia Prado)
Saturday, May 16, 2009
Wednesday, May 13, 2009
teatro
Que acontece quando decidimos recusar o papel que interpretamos há tantos anos? Um papel que já se tornara a nossa realidade? Decorámos os textos, repetimos os ademanes da personagem, a sua força e magnetismo, conquistámos amizades, vivemos amores e mágoas também. O tempo foi passando e o público exigia que continuássemos a interpretá-lo. Não aceitava substituições. O desgaste da trama impôs um corte do orçamento e grandes mudanças. Reduzido o elenco, a representação passou de diária a semanal. Agora sobra-nos tempo nos dias, são mais raros os diálogos, prolongados os silêncios, menos dramáticas as emoções. Descobrimos que afinal vivêramos uma verdade na mentira. A verdade de simularmos uma força iluminada pelos holofotes da fantasia e não pela chama débil e tremeluzente dos temores. Corre o pano pela última vez e lemos já a sinopse de uma nova produção. Apenas nossa. Um monólogo sem cenários faustosos, maquilhagem especial ou sofisticado guarda-roupa mas com um texto escrito por nós e para nós. A iluminação? Forte como o brilho num olhar de ansiado regresso a casa.
Tuesday, May 12, 2009
Saturday, May 09, 2009
wishful thinking
Desta pequena e estreita varanda, tão lusa, tão lisboeta, com varandim já de verdete vestido, tentei fazer um jardim. O sol não se lhe negava e os vasos foram chegando. Sardinheiras — pois claro, tão nossas — e a obrigatória buganvília de algarvias memórias. Quis que fosse um jardim em parte imaginário de tão singelo que poderia ser. Tratei-o com desvelo mas algo faltava. Rega não era. Adubo também não. Cuidadosa, atendi-lhe todas as exigências. Mas ele recusou-se a ser o meu jardim. Sentiu, no fundo das débeis raízes, que nunca seria esse meu jardim. E deixei-o secar porque a natureza sabe melhor que nós aquilo que nos faz falta. E ensinou-me que o meu jardim existe algures, basta eu saber procurá-lo.
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