Wednesday, May 13, 2009

teatro

Que acontece quando decidimos recusar o papel que interpretamos há tantos anos? Um papel que já se tornara a nossa realidade? Decorámos os textos, repetimos os ademanes da personagem, a sua força e magnetismo, conquistámos amizades, vivemos amores e mágoas também. O tempo foi passando e o público exigia que continuássemos a interpretá-lo. Não aceitava substituições. O desgaste da trama impôs um corte do orçamento e grandes mudanças. Reduzido o elenco, a representação passou de diária a semanal. Agora sobra-nos tempo nos dias, são mais raros os diálogos, prolongados os silêncios, menos dramáticas as emoções. Descobrimos que afinal vivêramos uma verdade na mentira. A verdade de simularmos uma força iluminada pelos holofotes da fantasia e não pela chama débil e tremeluzente dos temores. Corre o pano pela última vez e lemos já a sinopse de uma nova produção. Apenas nossa. Um monólogo sem cenários faustosos, maquilhagem especial ou sofisticado guarda-roupa mas com um texto escrito por nós e para nós. A iluminação? Forte como o brilho num olhar de ansiado regresso a casa.

1 comment:

PAS[Ç]SOS said...

... até que o monólogo, eventualmente, toque noutro monólogo e possam descobrir que o diálogo ainda é possível...