Saturday, May 30, 2009

Saturday, May 23, 2009

O Vestido

No armário do meu quarto escondo de
tempo e traça meu vestido estampado em
fundo preto.
É de seda macia desenhada em

campânulas vermelhas à ponta de longas
hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como

um rito, meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu

corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória

guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem

minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

(Adélia Prado)

Saturday, May 16, 2009

Wednesday, May 13, 2009

teatro

Que acontece quando decidimos recusar o papel que interpretamos há tantos anos? Um papel que já se tornara a nossa realidade? Decorámos os textos, repetimos os ademanes da personagem, a sua força e magnetismo, conquistámos amizades, vivemos amores e mágoas também. O tempo foi passando e o público exigia que continuássemos a interpretá-lo. Não aceitava substituições. O desgaste da trama impôs um corte do orçamento e grandes mudanças. Reduzido o elenco, a representação passou de diária a semanal. Agora sobra-nos tempo nos dias, são mais raros os diálogos, prolongados os silêncios, menos dramáticas as emoções. Descobrimos que afinal vivêramos uma verdade na mentira. A verdade de simularmos uma força iluminada pelos holofotes da fantasia e não pela chama débil e tremeluzente dos temores. Corre o pano pela última vez e lemos já a sinopse de uma nova produção. Apenas nossa. Um monólogo sem cenários faustosos, maquilhagem especial ou sofisticado guarda-roupa mas com um texto escrito por nós e para nós. A iluminação? Forte como o brilho num olhar de ansiado regresso a casa.

Saturday, May 09, 2009

wishful thinking

Desta pequena e estreita varanda, tão lusa, tão lisboeta, com varandim já de verdete vestido, tentei fazer um jardim. O sol não se lhe negava e os vasos foram chegando. Sardinheiras — pois claro, tão nossas — e a obrigatória buganvília de algarvias memórias. Quis que fosse um jardim em parte imaginário de tão singelo que poderia ser. Tratei-o com desvelo mas algo faltava. Rega não era. Adubo também não. Cuidadosa, atendi-lhe todas as exigências. Mas ele recusou-se a ser o meu jardim. Sentiu, no fundo das débeis raízes, que nunca seria esse meu jardim. E deixei-o secar porque a natureza sabe melhor que nós aquilo que nos faz falta. E ensinou-me que o meu jardim existe algures, basta eu saber procurá-lo.