Observo-a discretamente numa manhã de sábado fria mas soalheira. Tem aquele ar de quem conhece bem o chão que pisa e espera encontrar no destino a confirmação de todas as expectativas. Uma vida programada mas nem por isso isenta de surpresas. Quiçá também elas esperadas. Inconscientemente. Sigo-lhe o olhar atento com que lê o jornal, a mão bonita e cuidada que vai virando as folhas. Por vezes, o esboço de um sorriso cúmplice com o teor do texto. Os barulhos da rua e da esplanada não a afectam. Absorta na leitura, alheia à mirada cobiçosa de alguns olhos masculinos. Há mulheres assim. Que se insinuam naturalmente. Cativam de forma discreta e cientes do efeito que provocam mas encaram-no com um recato e uma modéstia que as tornam ainda mais sedutoras. Então, de súbito, toca o telemóvel. Atende com um brilho no olhar e uma voz gutural, sussurrante. Escuta com o enlevo que eu já esperava. Depois, num sacudir dos cabelos, solta o riso.
E oiço-a dizer-me: Se me virar agora para trás, vejo-te aí à porta, não? Adoro as tuas surpresas, meu amor.
E oiço-a dizer-me: Se me virar agora para trás, vejo-te aí à porta, não? Adoro as tuas surpresas, meu amor.

2 comments:
Excelente destrição com requintados pormenores... sente-se e vive-se o momento. Parabéns!!
A descrição, a segurança, o aparente alheamento do ambiente em redor, são atributos para a cativação. As surpresas fazem parte do jogo de sedução, mas quem planeia até por elas talvez espere.
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